quinta-feira, 8 de março de 2012

MULHERES DE PAIXÃO E DE COMPAIXÃO!!!

por: Luiz Oliveira Rios


Esta foto, que recebeu o prêmio World Press Photo 2011, foi tirada no Yemen. -
Samuel Aranda/Divulgação


Já escrevi certa vez neste jornal (Diário do Comércio) que somente a fotografia tem o poder de parar o tempo, e que este, por pura vingança, faz com que a foto fique amarelada – mas o tempo estará ali aprisionado para sempre naquele instante mágico do espocar de um flash.

O espanhol Samuel Aranda, fotógrafo profissional de fina sensibilidade e coragem para perambular por devastadas zonas de guerra, ganhou o prêmio World Press Photo 2011, o mais importante da fotografia. Ele fotografou em outubro de 2011, em Sanaa, capital do Iemen, numa mesquita transformada em hospital, uma cena de alta dramaticidade e de terna compaixão, a ponto da foto ter recebido o majestoso adjetivo de "Pietà Árabe", comparando seu impacto à obra homônima de Michelangelo, de 1499, retratando o corpo morto de Jesus sendo amparado pelos braços de sua mãe Maria (daí que a Virgem Maria também ficou conhecida como Nossa Senhora das Dores ou da Piedade).

Nessa foto, feita em território destruído pelo ódio entre irmãos, um homem nu e ensanguentado, provavelmente já em agonia, é carinhosamente amparado por uma mulher de burka negra, provavelmente uma enfermeira que atua nos campos de batalha, com suas luvas brancas manchadas de sangue. Não se pode ver o rosto da mulher, mas, pela sua forma ereta de sentar, é possivelmente jovem, talvez bela. Aliás, mesmo se tiver o rosto vincado pelo tempo, ou pelo inclemente sol daquelas paragens áridas, mais bela ainda será essa mulher, posto que a verdadeira beleza está no coração.

O impressionante, ainda, é a capacidade humana de extrair da mais profunda dor traços de beleza e de ternura que provam à exaustão que, imbricado nos próprios traços humanos, existe o toque inefável de um ser maior de nome genérico Deus, para a Pietà de Michelangelo, ou Alá, para a Pietà Árabe.

Tenho afirmado também que a nossa Língua Portuguesa é, sem dúvida, uma das mais belas do mundo. As palavras Piedade e Compaixão, que na semântica do amor possuem profunda correlação, a meu ver reúnem em si mesmas uma sonoridade de rara beleza, a reforçar sua conotação maior de solidariedade humana, não só nas situações extremadas, como no contexto das guerras insanas, mas também no cotidiano. O problema é que, nos dias que correm, tanto no núcleo familiar quanto profissional, os egos estão de tal forma inchados que exigem, digamos, uma "lipoaspiração” do excesso de gordura da própria alma de muita gente.

A falência do amor nesta sociedade "líquida", em todos os seus níveis, é assustador, senão vejamos: segundo o pensador Michel de Montaigne (1533-1592), há quatro tipos de amor: natural, social, hospitaleiro e erótico.

Qualquer um deles, infelizmente, nesta segunda década do terceiro milênio está "baleado". Nunca, como nos dias de hoje, mães e pais têm abandonado tanto seus filhos à própria sorte; algumas genitoras (porque mãe é uma palavra que não se aplica a elas) fazem o "descarte" de seus bebês em gestação através do aborto em clínicas infectas ou jogam os recém-nascidos num latão de lixo.

No âmbito social, as pessoas mal se toleram; às vezes nem isso, e no contexto de certas empresas a competição interna é visceral: é comum um profissional descompensado tentando devorar o outro vivo, o qual, por sua vez, paga na mesma moeda. E salve-se quem puder, pois o inferno é para todos.

A hospitalidade cedeu lugar à "desconfiabilidade". Moradores de um mesmo condomínio sequer dizem "bom dia" uns aos outros, que dirá ter uma agenda de visitas mútuas para um "dedo de prosa" que poderia criar laços genuínos de amizade.

O erótico de há muito descambou para a pornografia em horário nobre. Na televisão, as cenas vão muito além do erotismo saudável e se transformam numa espécie de teatro de coito canibal explícito - ou quase.

Na cidade, na fazenda e até nas casinhas de sapé, os valores, como virtudes humanas, ou estão esmaecidos ou já foram deletados do cotidiano. No lugar da piedade, a vingança; para substituir a compaixão, doses maciças de crueldade contra os cidadãos órfãos da assistência do Estado, falido nas suas funções basilares, como revelam as cenas dos (des)atendimentos na rede pública de saúde.

Quando os jurados outorgaram o prêmio ao fotógrafo da "Pietà Árabe", no íntimo queriam dizer: chega de flagelo contra o próprio semelhante, não importa se ele acredita num ser superior chamado Deus ou Alá, ou se não acredita em nenhuma entidade sobrenatural. A compaixão daquela mulher de burka negra e luvas brancas manchadas de sangue é como um soco no estômago da gente. Pelo impacto, provoca náusea imediata; mas depois, quando se fixa o olhar nos detalhes e se compreende o halo de piedade transmitido pelo abraço maternal a envolver o moribundo, vem à mente um brado famoso na voz de John Lennon, mas ainda de candente atualidade: "Give peace a chance!" (Vamos dar uma chance à Paz!).

De novo, eis as mulheres anônimas se firmando como belas e fortes sem precisar de bocões, peitões, bundões. Eis, por exemplo, a nossa desembargadora Eliana Calmom, destemida feito um Dom Quixote de saias, investindo contra as malfeitorias de alguns juízes que envergonham a magistratura brasileira.

Ave, Eliana!. Todos os brasileiros de boa cepa te saúdam!

Que surjam mais mulheres cheias de graça e pietà, pois o mundo carece desesperadamente delas, assim como Jesus careceu dos fortes e suaves braços de sua mãe Maria, e o nosso alquebrado irmão árabe necessitou do abraço da mulher toda coberta pela burka, mas que, na sua bondade magna, tinha a alma inteiramente iluminada com a luz típica de um anjo da Ordem dos Querubins Celestiais.

Ave, mulheres brasileiras e do mundo todo pelo seu dia internacional.

Luiz Oliveira Rios é profissional de Marketing e Vendas e colunista do Diário do Comércio. oliveira.rios@hotmaisl.com

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